Sereníssima

por Dulcineia Vitor

Quantas vezes é possível se perder? Esquecer quem se é. Enganar-se sobre quem se é.

Quantas vezes é possível não enfrentarmos nossas cobiças como vontades do que queremos e nossas ofensas para o outro como vazios nossos? Quantas vezes é possível manter-se no automático sem enfrentarmos o que está diante do nariz?

Quantas vezes é possível deixarmos para trás as cicatrizes das batalhas e nos fantasiarmos de bem resolvidos e evoluídos seres? Quantas vezes é possível esquecer de se interrogar como foi seu dia e como você gostaria que tivesse sido?

Quantas vezes é possível perceber que está tudo errado, se chatear, e mudar tudo outra vez?

Recomeços… entendo bem.

Talvez, quando o caminho percorrido tenha significado, basta olhar de volta. Talvez, uma estrada, uma música, um aroma, um sabor… O start para os questionamentos e para a retomada.

Com certeza, quando as raízes são fortes, basta alimentar. Com certeza, quando se tem amigos para lembrar o que se foi e o que pode vir a ser, é bem melhor.

É possível se perder, se esquecer, se enganar inúmeras vezes. É possível nunca mais se dar conta disso… e é possível também retomar.

A vida tem suas armadilhas.

Que esteja sempre cravado em nós quem somos, o que queremos e onde devemos mudar, para que em todas as crises de amnésia, de fantasia e de ‘vida real modo hard’, possamos ter para onde olhar e voltar.

O que amamos se torna raiz, o que odiamos chacoalha como vento de tempestade. O que construímos é referência, o que desconstruímos é evolução.

Apenas respire e movimente-se.

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Crônica Apaixonada

por Dulcineia Vitor

Peça ao apaixonado calma, peça que pare de contar os minutos para estar com o ser amado, peça para raciocinar. O que é raciocinar?

Peça ao apaixonado que não se exponha, não ria à toa e nem traga para todos os assuntos o quanto o ser amado é inteligente, bonito, interessante; talvez o ser mais inteligente, mais bonito e mais interessante de todo o mundo. Peça ao apaixonado que não associe as músicas mais lindas a quem ama.

Peça ao apaixonado que não pense que será para sempre, que é o amor da vida. Peça ao apaixonado que entenda as funções químicas pelas quais seu corpo passa e o deixa assim, tão… tão… tão apaixonado. Peça ao apaixonado que não leia livros com finais felizes, nem veja filmes assim. Peça a ele que não pense o tempo todo no que sente e no quanto quer entregar desse sentimento ao ser amado.

Peça ao apaixonado que tenha juízo, que não se engane. Peça que não se entregue totalmente, não exagere nas declarações, nos cuidados e nas vontades.

Peça ao apaixonado que se distancie do ser amado para não se perder, que se coloque em primeiro lugar e que seja egoísta. Peça ao apaixonado para não acreditar em amores impossíveis, não olhar só o lado bom da vida e o colorido das flores. Peça ao apaixonado que seja realista.

Peça ao apaixonado que não aconselhe os amigos, peça que não deseje a todos o mesmo estado de encantamento e nem saia cantarolando por aí.

Impossível.

O apaixonado é o brilho dos olhos, é o sorriso que escapa sem motivo, é o ápice da melhor música.

O apaixonado é vida, é velocidade, é intensidade. É um pouco de paz e de muita esperança. O apaixonado é o rosto mais bonito, é o corpo mais leve, é a dança mais harmônica.

O apaixonado são as melhores ideias, os perfumes mais delicados e marcantes, os toques mais suaves. O apaixonado é a pressa de estar, e quando está, é a calma de ficar. O apaixonado é a força, é a confiança, é a gentileza. O apaixonado é o cuidado e o descuido.

O apaixonado é o erro mais engraçado e o acerto menos ponderado.

Apaixone-se.

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Ô coisinha tão bonitinha da filha

por Dulcineia Vitor

É só quando crescemos que percebemos que nada é para sempre.

Nunca pensei que meu pai fosse um herói. Ao contrário de muitos pais por aí, o meu se expunha, demonstrava seu lado ser humano, tinha dúvidas, discutia, ouvia. Porém, sempre achei que ele fosse eterno.

Doce ilusão.

Quando, aos 26 anos, perdi meu pai, foi um choque. Claro que não estava preparada. Infelizmente, eu já tinha passado por desilusões suficientes para entender que a vida “não é bem assim”, mas pô, meu pai! Aquele que me ensinou tanto, como podia ir assim? Mas foi.

O cara que quando eu tinha uns 5 anos me incentivou a abrir meu primeiro negócio, sim, isso mesmo. Ele sempre acreditava no que eu queria, acreditou até o último dia. Porém, só quando via o brilho nos meus olhos. Me ensinou que é com paixão que se faz as coisas, caso contrário, melhor nem fazer.

Tenho como provar que até bolo feito sem amor dá dor de barriga.

Um pai que além de presente fisicamente era presente na alma, eu sentia a presença dele – ainda sinto. Se existir outra vida, nossas almas já eram ligadas de lá. Hoje, posso fechar os olhos e ouvir a voz dele, saber exatamente o que tem pra me dizer, do que reclamaria e que caminhos ele me mostraria na dúvida.

Uma pessoa especial, iluminada, que ajudou muita gente. Que me ensinou a questionar, a amar à toa, a entender os outros ou tentar. Que nunca se vendeu e que me mostrou o porquê da vida de cada um valer mais que qualquer outra coisa no mundo.

Papai dizia pra terminarmos o que começamos, mas só se ainda fosse coerente, apaixonante. Por isso hoje sei mudar de rota, me atropelo, atrapalho, choro sentada no chão, mas levanto e vou.

Obrigada pai! Sempre o amarei!!


E aqui a música que ele me cantava quase todos os dias, juro!

Dá o play!!

UM APELO: Que voltem as bandas dos anos 90!

especial música por Grasiele Reis

Porque a vida não tá fácil pra ninguém…

Mas veja bem, o título deste texto não pretende generalizar e englobar em tal apelo TODAS as bandas da época. Vamos falar mais especificamente sobre o que “apelidaram” de britpop.

E o apelo é feito pelo seguinte motivo: o que há no rock hoje em dia, hein você aí que nasceu por volta de 80..? Eu tenho me perguntado isso todos os dias e até me esforço pra encontrar uma resposta, mas ainda não consegui.

Estamos muito carentes de artistas que façam a diferença; que mudem alguma coisa, mesmo que seja apenas na sua própria vida. E na minha humilde e muito pessoal opinião, os últimos heróis surgiram nos anos 90 e estão sumindo pouco a pouco.

Taí (não tá mais, aliás) o grande Oasis que não me deixa mentir. Nasceu em Manchester em 1991 e deu um tapa na cara da cena rock mundial em 94, nos dando uma opção a mais do que o grunge.

Com o disco Definitely Maybe os irmãos Gallagher mostraram a que vieram, arrepiando com Live Forever e depois, criando incontestáveis hits como Wonderwall. A química perfeita da banda se deve à alma entregue de Liam mais a genialidade incontestável de Noel Gallagher. Polêmicos, com fama de briguentos e insuportáveis, os irmãos construíram a áurea que envolve o Oasis como ninguém. A banda chegou ao fim ano passado, após a gota d’água entre Noel e Liam que mais parecem Caim e Abel – embora eu ache que tudo isso não passa de uma grande fábula. Liam carregou o resto da banda pra outra, chamada Beady Eye, e Noel segue sua carreira solo eu-não-preciso-de-vocês-pra-ser-foda. E nós esperamos pela volta dessa que foi a maior banda dos anos 90; talvez, a última grande banda de rock da história.

O não menos genial Radiohead tem a fama cabida de engendrar o culto depressivo e a poética pessimista – bem como o também saudoso The Verve que ensaiou uma volta por esses dias, mas já arredou o pé novamente. Liderada por Thom Yorke, a banda mudou a sonoridade ao longo de seus oito álbuns. Evoluiu junto com o tempo. Continua na ativa, porém os dois primeiros discos, Pablo Honey e The Bends deixaram a saudosa lembrança de sua aparição com guitarras carregadas que choravam nas canções acompanhando a voz sôfrega de Yorke.

Blur, Suede, Placebo, Elastica, Supergrass, Manic Street Preachers, Travis… poderia fazer uma vasta lista de coisas noventistas que deram esperança de que o rock não havia morrido e podia sim ser feito de maneira original e visceral. Poucas das bandas surgidas nessa época ainda estão vivas, porém não com aquele intuito de salvar as almas perdidas do rock’n roll do início.

Fomos devastados pelo vazio e pelo fácil. Letras são um problema, mas a atitude (ou a falta de) é que entrega a ausência de conteúdo e de essência, de verdade, de visceralidade… O que é o rock hoje em dia?

Temos uma porrada de bandas perecíveis, que já na primeira audição sacamos que não passam do segundo ou terceiro disco, no máximo. Não vejo vontade, não vejo sangue nos olhos, não vejo coração nem alma. A gente até tenta apostar, porque queremos que a esperança continue sendo nossa amiga, mas tá difícil. Somos musicalmente abandonados esperando o grande salvador chegar. Mas eu acho que não chegará. No máximo, dá aquele friozinho na barriga ao ver um show bacana de uma banda atual, mas nada que não suma quando você volta pra casa e coloca Supersonic no último.

Ao contrário do título, no qual fiz um apelo fantasioso, não esperamos que surja algo semelhante a essas bandas ou à época. Não precisamos de repetições. Ansiamos por música de qualidade – e nova.

Há muita dificuldade nisso? Em pegar uma guitarra e estraçalhar no palco, em colocar toda sua verdade pra fora em melodias sujas ou bem construídas, não importando o estilo? Só nos importa que seja verdadeiro e bom. Estamos esperando. Ainda.