Crônica Apaixonada

por Dulcineia Vitor

Peça ao apaixonado calma, peça que pare de contar os minutos para estar com o ser amado, peça para raciocinar. O que é raciocinar?

Peça ao apaixonado que não se exponha, não ria à toa e nem traga para todos os assuntos o quanto o ser amado é inteligente, bonito, interessante; talvez o ser mais inteligente, mais bonito e mais interessante de todo o mundo. Peça ao apaixonado que não associe as músicas mais lindas a quem ama.

Peça ao apaixonado que não pense que será para sempre, que é o amor da vida. Peça ao apaixonado que entenda as funções químicas pelas quais seu corpo passa e o deixa assim, tão… tão… tão apaixonado. Peça ao apaixonado que não leia livros com finais felizes, nem veja filmes assim. Peça a ele que não pense o tempo todo no que sente e no quanto quer entregar desse sentimento ao ser amado.

Peça ao apaixonado que tenha juízo, que não se engane. Peça que não se entregue totalmente, não exagere nas declarações, nos cuidados e nas vontades.

Peça ao apaixonado que se distancie do ser amado para não se perder, que se coloque em primeiro lugar e que seja egoísta. Peça ao apaixonado para não acreditar em amores impossíveis, não olhar só o lado bom da vida e o colorido das flores. Peça ao apaixonado que seja realista.

Peça ao apaixonado que não aconselhe os amigos, peça que não deseje a todos o mesmo estado de encantamento e nem saia cantarolando por aí.

Impossível.

O apaixonado é o brilho dos olhos, é o sorriso que escapa sem motivo, é o ápice da melhor música.

O apaixonado é vida, é velocidade, é intensidade. É um pouco de paz e de muita esperança. O apaixonado é o rosto mais bonito, é o corpo mais leve, é a dança mais harmônica.

O apaixonado são as melhores ideias, os perfumes mais delicados e marcantes, os toques mais suaves. O apaixonado é a pressa de estar, e quando está, é a calma de ficar. O apaixonado é a força, é a confiança, é a gentileza. O apaixonado é o cuidado e o descuido.

O apaixonado é o erro mais engraçado e o acerto menos ponderado.

Apaixone-se.

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O homem que usava perfume de mulher

por Dulcineia Vitor

Vinha despertando a atenção de todas as pessoas, andava pela rua como o mais imponente macho, cheirava bem… Mas o que era?

Para onde olhava tinha a atenção esperada, ‘ganhava’ sempre! Era alguém muito especial, olhar apaixonante, altura interessante e cabelos esvoaçantes. É, até rima o que era…

Certa vez, uma mulher me contou que ele era o homem mais fascinante da Terra. Porém, que ela não conseguira conviver com ele por mais de dois dias… Justificou ser o gosto adocicado do amor dele.

Ninguém sabia o que era. Mas ele encantava. Cheirava bem. Comerciantes esqueciam de cobrar-lhe as compras, caixas de banco esqueciam o pedido de depósito, motoristas de táxi erravam o destino, e, sim, não importava o gênero: todos se apaixonavam por aquele homem.

Até que um dia alguém o encontrou na perfumaria, havia acabado o encanto. Estranhou esse alguém, mas continuou a observar… E o viu comprar um perfume feminino… Alguém, então, interrompeu:

– É para sua namorada?

O homem com um sorriso já sem graça nenhuma, mas com um ar satisfeito, respondeu:

– Não, é para mim. Costumo usar este perfume de flores, me agrada, e o meu acabou.

Deu uma borrifada, logo ali, em si mesmo; e todos se apaixonaram novamente, o encanto retornara. E, o homem saiu sem pagar o perfume.