Sereníssima

por Dulcineia Vitor

Quantas vezes é possível se perder? Esquecer quem se é. Enganar-se sobre quem se é.

Quantas vezes é possível não enfrentarmos nossas cobiças como vontades do que queremos e nossas ofensas para o outro como vazios nossos? Quantas vezes é possível manter-se no automático sem enfrentarmos o que está diante do nariz?

Quantas vezes é possível deixarmos para trás as cicatrizes das batalhas e nos fantasiarmos de bem resolvidos e evoluídos seres? Quantas vezes é possível esquecer de se interrogar como foi seu dia e como você gostaria que tivesse sido?

Quantas vezes é possível perceber que está tudo errado, se chatear, e mudar tudo outra vez?

Recomeços… entendo bem.

Talvez, quando o caminho percorrido tenha significado, basta olhar de volta. Talvez, uma estrada, uma música, um aroma, um sabor… O start para os questionamentos e para a retomada.

Com certeza, quando as raízes são fortes, basta alimentar. Com certeza, quando se tem amigos para lembrar o que se foi e o que pode vir a ser, é bem melhor.

É possível se perder, se esquecer, se enganar inúmeras vezes. É possível nunca mais se dar conta disso… e é possível também retomar.

A vida tem suas armadilhas.

Que esteja sempre cravado em nós quem somos, o que queremos e onde devemos mudar, para que em todas as crises de amnésia, de fantasia e de ‘vida real modo hard’, possamos ter para onde olhar e voltar.

O que amamos se torna raiz, o que odiamos chacoalha como vento de tempestade. O que construímos é referência, o que desconstruímos é evolução.

Apenas respire e movimente-se.

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Caminhar

por Dulcineia Vitor

Já tenho 30 anos e ainda escorrego do sofá para o chão. Ainda faço ‘dancinhas’ de comemoração quando uma roupa fica muito bonita. Faço piadas bestas e dou risada de chorar de tantas outras besteiras.

Não me perdi no caminho.

O caminho foi árduo – é árduo; a cada passo que dei, queimei um pouco do que fui… Tive apoio, tive colo, mas tive que confiar em mim. Enquanto andei, não senti como se fosse capaz de entender e saber esse caminhar todo, não senti como se fosse eu que tivesse percorrendo todo ele.

Tive medo, tive fé.

O medo sobressai aos sentimentos e trava. Não é bom. Ele cerca suas escolhas, ele o torna incapaz de ter fé. Ter fé: afirmar algo como verdade. Fé não combina com medo, com dúvida, com prevenção.

Qualquer caminho é menos dolorido com fé. Fé, apenas fé. Não me refiro a religiões. Nem a Deus. Fé. Entregar-se ao seu querer e seguir. Ter fé em si e na sua vontade. Entender que os seus objetivos devem se sobressair aos medos e travas que possam impedir seu caminhar.

Eu mudei, Deus mudou em mim. Mudou de lugar, de ar, de tamanho, de forma e de cor. Deus não está mais do lado de fora, mora em mim. Talvez não seja o mesmo Deus de alguns anos atrás, talvez eu nem saiba explicar direito, mas que posso chamar de “meu Deus”, ah sim, isso posso. Com Ele dentro de mim, reconheço o quanto sou fraca, falha e medrosa.

Reconhecer fraquezas é saber se perdoar, para se fortalecer. Reconhecer as falhas, é compreender o que pode ser o melhor. E, por fim, reconhecer medos, é perceber o que o trava para suas escolhas.

Descabele-se um pouco e grite com o som abafado no travesseiro. Porém, veja o quanto é necessário ter fé em suas escolhas e vontades, em como todo e qualquer paradigma social pode não servir para construir sua felicidade.

Caminhar é pedir ajuda e nem sempre receber, é saber fazer sozinho, aprender. É pôr a sua frente sentimentos bons para a vida. Descabele-se mais um pouco, mas não tenha medo.

Caminhar é viver e nem sempre este caminho, a vida, será plano e sem obstáculos, será preciso se equilibrar, ter fé, respirar fundo e prosseguir. Ter coragem.

Coragem é amar. Amor enche a vida de cor, ar e gargalhadas boas demais.

Já tenho 30 anos e ainda durmo abraçada com um ‘paninho’.

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Quão suficiente

por Dulcineia Vitor

Até quanto é suficiente? Deve-se encher o copo até a beirada ou só aqueles três goles que matam a sede? Nos damos conta mesmo de quando está no limite ou de quando já foi o suficiente?

Suficiente se ultrapassa ou se alcança?

Por ora, só quero entender essa palavra: suficiente. Dos conceitos, de tudo que nos empurram goela abaixo, seja a sociedade, sejam nossos pais; sempre ouvimos o quanto está bom, o quanto devemos alcançar. O quanto é suficiente.

Mas como suficiente? Suficiente para quem?

Suficiente por vezes me parece uma prisão, porque está lá no chegar, nunca está no partir. Como se a caminhada fosse inválida, daí o suficiente seria a linha de chegada, mas, muitas vezes não é, fica sendo a medalha, mas só se for a de ouro, estiver sol no dia e alguém fotografar. Aí é o suficiente! É?

Me aborrece pessoas que desvalorizam toda uma cruzada, história, caminho, já fiz isso, sei como é. Penso que cada pequena conquista nos constrói e faz parte de nós, e mesmo que ainda se queira mais, a ida até esse ‘mais’ faz parte de tudo, não tem suficiente.

Pra que suficiente? Não pode transbordar? Não pode parar e mudar a rota? Onde se mede o suficiente?

Como dizer à uma criança que já basta, já foi o suficiente na brincadeira de rodá-la. Ela quer mais, ela amou aquilo, aproveitou. Foi o suficiente para quem?

Tenho no meu coração que o que importa é ser feliz. Seja qual for a escolha, nos cabe ter cuidado com as pessoas, nos responsabilizarmos pelo que devemos e seguirmos com ética nossas vidas.

Considero que o segredo da felicidade  é entender que não há limite, não a linha de chegada, apenas há a vontade de ser feliz. E dá pra ser agora!

Bora?