Sereníssima

por Dulcineia Vitor

Quantas vezes é possível se perder? Esquecer quem se é. Enganar-se sobre quem se é.

Quantas vezes é possível não enfrentarmos nossas cobiças como vontades do que queremos e nossas ofensas para o outro como vazios nossos? Quantas vezes é possível manter-se no automático sem enfrentarmos o que está diante do nariz?

Quantas vezes é possível deixarmos para trás as cicatrizes das batalhas e nos fantasiarmos de bem resolvidos e evoluídos seres? Quantas vezes é possível esquecer de se interrogar como foi seu dia e como você gostaria que tivesse sido?

Quantas vezes é possível perceber que está tudo errado, se chatear, e mudar tudo outra vez?

Recomeços… entendo bem.

Talvez, quando o caminho percorrido tenha significado, basta olhar de volta. Talvez, uma estrada, uma música, um aroma, um sabor… O start para os questionamentos e para a retomada.

Com certeza, quando as raízes são fortes, basta alimentar. Com certeza, quando se tem amigos para lembrar o que se foi e o que pode vir a ser, é bem melhor.

É possível se perder, se esquecer, se enganar inúmeras vezes. É possível nunca mais se dar conta disso… e é possível também retomar.

A vida tem suas armadilhas.

Que esteja sempre cravado em nós quem somos, o que queremos e onde devemos mudar, para que em todas as crises de amnésia, de fantasia e de ‘vida real modo hard’, possamos ter para onde olhar e voltar.

O que amamos se torna raiz, o que odiamos chacoalha como vento de tempestade. O que construímos é referência, o que desconstruímos é evolução.

Apenas respire e movimente-se.

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Olhos fechados, coragem!

por Dulcineia Vitor

A vida e suas constantes transformações. Transformações que escolhemos, transformações que nos atropelam.

Não dá pra controlar.

O olhar muda, o seu redor inteiro muda. É como uma mola esticada que vai perdendo a perfeição das rodelas e quando encolhida não volta a ser a mesma. É como a massa cozida que ganha maciez com o tempo de aquecimento. É como o vento que bagunça as nuvens formando novos desenhos, desfazendo outros.

As pessoas partem, você se reparte.

São atos, palavras, sentimentos, tudo ao mesmo tempo tornando quem você é. Mudando os caminhos que você vai percorrer. Fecha os olhos, coragem!

Como alguém que aperta os olhos de pavor no pico da montanha russa, abre no meio da descida e sorri, porque sente que vai ficar tudo bem. O que é a vida? Seriam os olhos fechados e a coragem? A vontade de passar o medo e ver que está tudo bem?

Viver o que está bem. Sentir o que está bem. Ultrapassar o que é ruim, excluir, esquecer.

Se você não está parado, se o que você quer é ser feliz, é sentir felicidade, tudo vai mudar o tempo todo e você vai ter que aprender a passar por essas mudanças.

Houve um tempo que acreditei na estabilidade como felicidade. Um outro que acreditei que gargalhadas representavam felicidade. Hoje penso que felicidade é um sorriso na alma, uma segurança no coração e meia dúzia de pessoas que seguram minha mão no momento mais dolorido da vida: viver.

E os pequenos gestos contam muito, dão força: um beijo de boa noite, um afago, um olhar doce; são eles que ficam, nada mais.

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Um Só

por Dulcineia Vitor

Como notas musicais que se sobrepõem, mas que não mudam o som uma da outra, ao contrário, criam harmonia, melodia, som. Uma complementa a outra, talvez uma nem viva sem a outra.

A cumplicidade é uma mágica dos sentimentos humanos.

Sentimento sincero, que você só tem com quem se liga, conecta, mistura. É desejar o melhor, sem nem saber se o melhor do outro é o melhor para você, é buscar em conjunto, orientar sem competir, ouvir.

Cumplicidade é mútua, ambos sentem, compartilham. A cumplicidade os torna um só, seja um amigo, um parente, um amor. Identifica-se no olhar, no toque, no tom de voz, na conversa, nas gargalhadas.

Um sentimento que nasce do amor verdadeiro – amor de doação e não de posse. Amor que dá brilho aos olhos pela conquista do outro, pelo bem-estar do outro; amor que não tem medo da distância.

Sorrisos soltos no ar. Olhares que se entendem.

Como verbos sem conjugar, por ser uma ação constante: tocar, ouvir, apoiar, orientar, amar. A cumplicidade não permite primeira pessoa do singular. Apenas primeira pessoa do plural: o nós.

Sentimento que acontece, se entrega.

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Não me faça suspirar

por Dulcineia Vitor

O instante que os olhos se encontram e você se sente completamente decifrada.

Tom de voz, respiração, gargalhadas, choros, amor… Histórias para contar, músicas para compartilhar… Novos momentos o tempo todo, novos toques, novos olhares, muito mais cumplicidade.

Amigos são presentes da vida. A vida não é justa, não é fácil, não é bonita; o que a torna assim ou próxima disso são estes seres que chamamos de amigos. Sem eles, nada vale.

Eles aparecem e de repente podemos chamar de “meu”, “meu amigo”. São em vários momentos, um amigo que apresenta outro, aquele na escola que empresta a caneta, o do trabalho que lhe convida para a happy hour, o vizinho que cresce ali do seu lado, o cara da praia, a menina da internet… Se moldam com você, passam a fazer parte de você. Ajudam a escolher novas roupas, a esquecer velhos amores, a se valorizar, a se reconstruir. Brigam com você.

Mão na massa, amigo de verdade é um pedreiro.

Um amigo ensina a dar shift+del na vida, para que aquilo que está errado seja deletado sem nem passar pela lixeira. Ensina como deixar o bolo mais molhadinho, como virar a tequila, como ouvir o baixo numa música, como pronunciar uma palavra longa, como não rir em momentos errados, como abrir o sachê do ketchup, como ultrapassar seus limites, como dar um golpe certeiro na vida.

Amigo se mistura, se perde em você e quando vocês se abraçam é o melhor lugar do mundo! Liga de madrugada para saber se você estava dormindo, manda sms respondendo ou perguntando bobagens, avisa sempre quando está bêbado… Lhe faz especial, lhe faz sorrir.

Ah, não me faça suspirar! Amigos não são pessoas, são lugares especiais.

E nessa vida, ganhei diversos lugares especiais. Preciosidades que cuidam de mim, que me fazem sentir especial, que dividem a panela de brigadeiro, que me fazem cafuné, que abrem a cortina pra eu ver o sol e que arrumam minha cama pra dormir. Pessoas que são pedaços de mim, que me constroem e reconstroem. E que sorte, quanto amor…

Amigo é para viver! Viva-o!

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Garota, eu vou pra Califórnia!

por Dulcineia Vitor

 

Hoje eu decidi ‘mudar de vida’, penso em lavar a cabeleira, sair ao vento e ouvir uma música libertadora… Tomar chuva, ver o mar…

O importante é a liberdade!

Libertar-se daquilo que lhe faz mal, esquecer aquilo que lhe foi inventado que seria bom, mas que de nada adianta, porque atrasa, machuca, encuca. A vida é muito mais do que pensamentos e ações, ela é cheia de surpresas, sejam boas ou más, e você tem que estar forte, preparada.

Daí você bate no peito e diz: “manda mais uma, irmã”, porque é assim mesmo. Não é porque você está mais fraca que a vida vai lhe poupar. A vida vai mandando os problemas, as situações, uma atrás da outra. Porém, mostra as soluções também, manda novos amigos, lembra você dos velhos, lhe enche de risos, de abraços e beijos bons demais.

Aprendi que não devemos provar nada à ninguém, você é o que é, acreditem ou não. Aprendi que devemos confiar nos olhos de uma pessoa, eles dizem mais que as palavras conseguem explicar. Aprendi que a culpa nada mais é que não saber o que quer, que não assumir o controle de suas vontades. Aprendi que um grande amor deve ser preservado, seja lá de que forma for, ele deve sempre ser cuidado. Aprendi que é muito mais gostoso dizer não e por isso tomar um tapa da vida, do que dizer muito sim e por isso nunca agradar a si mesma.

É essencial ter foco – isso eu sempre digo, vivo a repetir que planejar-se é o ideal. Mas nem sempre dá, não é? A vida vem, lhe atropela e PUF cadê sua vida dos sonhos? Para tanto, é necessário tirar uma força lá de dentro, do fundo da alma, do lado esquerdo do peito e erguer o castelo que sempre quis. Com foco fica mais fácil, porque você se distrai menos.

Uma vez que a vida não vem com manual de instruções e é curta demais, aproveite! Siga o coração e ‘mude de vida’ a cada segundo que lhe convier, porque ter uma ‘vida nova’ dentro da ‘vida velha’ é a melhor coisa que existe.

Ah, como vou pra Califórnia? Devo ir de bike, assim o vento beija melhor meus cabelos.