Sobre Dulcineia

Conversar é minha arte. Compartilhar o silêncio, minha paixão. Escrevo com amor e por amor. Publicitária. Aprendendo a amar sem posse, meditar e agradecer.

Gema Mole

por Dulcineia Vitor

São os detalhes. Cada detalhe!

Quando a luz do sol bate nos olhos e revelam nova cor, quando os óculos escorregam pelo nariz e com uma careta é ajeitado, quando aquela gargalhada sonora é solta e revela uma respiração infantil e feliz.

Os detalhes compõem tudo, revelam muito. É aquele jeito especial da melhor amiga de pôr a mesa do café, a ‘mania’ de organização de alguém, o jeito de passar a marcha no carro… É como seu amigo sorri e aperta os olhinhos, como sua mãe passa manteiga no pão, é como alguém marca sua vida com cada pedacinho da existência.

Tem o jeito de soltar o cadeado da corrente da bicicleta, o jeito de prender a camiseta no cinto, tem o sotaque, a voz de menino, o jeito tímido e bem humorado… Tem a maneira de apresentar o mundo, tem a decoração da casa e o perfume.

A maneira que se prepara os ingredientes para um grande prato, como se chega perto para falar baixinho e como franze a testa para brigar. A maneira que chora e enxuga o nariz, que chega em casa e joga a bolsa no sofá, o hábito de beber água na temperatura ideal, de experimentar o tempero, de gesticular numa explicação.

Enriquece cada mínimo detalhe.

Papai gostava de ovos no café da manhã, cada dia um diferente. Os fritos com a gema mole, tipo preferido dele, me incomodavam e um dia ele disse: “vem filha, vê como com a casquinha do pão fica ótimo”, sem querer muito, experimentei.

Ahhhhh, pai.

Quando a saudade aperta o peito: ovos fritos com a gema mole, casquinha do pão francês levemente molhada nela e pronto, papai está lá.

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Toque

por Dulcineia Vitor

Dança devagar, vem! Toca devagar seu par, acolhe, recolhe… Leva para girar, mostra o mundo, as estrelas, a chuva. Deixa seus olhos perdidos, mas tenta se concentrar no olhar do par, roda pelo salão.

Ah, meu amor…

Perde a hora nessa dança, declara seus sentimentos, suas vontades,  fala baixinho, sussurra, toca de novo, gruda, forma um só. Acelera essa dança, toca os lábios e diz para fugirem dali.

Foge, vai longe. Não desiste, não muda o passo.

Sorri pra vida, encanta, chama seu par para conhecer o que é sonhar sem dormir. Toca devagar a cintura, inverte, fala mais alto, escolhe outra música… Dança! Dança!

Abraça com desespero, como se tudo fosse acabar a qualquer momento. Aperta a mão e retoma a dança, deixa a chuva cair. Molha. Respira pertinho da nuca, transforma os passos. Toca firme, puxa.

Respira fundo, recomeça.
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Pertencimento

por Dulcineia Vitor

Dia de inverno com sol, vento fresco do mar, garoa fina da madrugada. Toque suave durante o sono, palavras duras para enfrentar a vida, amigos companheiros. Cafuné para dormir, voz pertinho da nuca para acordar, cabelos molhados para pedalar.

Um bom café, doce, desculpe.

Unhas vermelhas e olhos sempre pintados. Balançar de corpos a qualquer música, olhar de ternura, olhar de tesão. Sabores inesquecíveis, aromas perfeitos. Chocolate, cigarro, cerveja, um bom vinho…

Música alta para não pensar, música baixa para sentir. Música no repeat. Roupas novas, cor nova nos cabelos. Um bom filme, a mesma série. Pedalar devagarinho, deixar o embalo levar… Olhos fechados na brisa, olhos abertos na hora de voar.

Brigas com a balança, caso de amor eterno com o espelho. Narcisismo, paixão, sedução. Meiguice, capacidade de olhar pelo outro, incapacidade de conviver com a tristeza. Desistência.

Coragem, medo.

O bom e velho rock n’ roll, moto, estrada tranquila, pássaros, árvores: araucárias. Descobertas, rotina, sucesso. Gente nova, gente velha, gente querida, gente perigosa. Acertos, erros, pedidos de perdão. Amor, amar, sexo, boa comida. Sensações novas, saudades da infância.

Pertencer-se.

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Anoitecer

por Dulcineia Vitor

Passei um bom tempo contemplando o pôr do sol, me aquietei sentada na grama observando cada raio laranja arranhando o céu, atentei a cada centímetro que o sol escondia de si, tentei contar as nuvens branquinhas que sobraram. Apontei a câmera, desfoquei a imagem, vi o sol maior do que meus olhos podiam ver, cliquei.

Tentei pensar numa música que pudesse compôr o momento, o silêncio tomou conta, brisa geladinha foi se aproximando, fechei os olhos, deixei tocar os cabelos, escureceu. Procurei pela lua, encontrei junto com muitas estrelas.

Quanto tempo dura o pôr do sol? E dentro de nós?

Muitas vezes não será possível responder as perguntas, talvez a importância, o tempo, um dia responda. Nunca conseguiremos capturar tudo o que vemos e o que sentimos, será sempre a essência disso.

Anoitece hoje com toda beleza e imensidão, amanhece amanhã com toda ingenuidade e esperança. O amor se renova, a paz se estabelece, a força aumenta e logo brilha os olhos.

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Está tudo bem

por Dulcineia Vitor

Uma dose de conhaque depois, dois ou três cigarros depois, pensamentos organizados.

Tudo estava tão bagunçado, tudo parecia tão turvo a qualquer olhar, mas era preciso apenas prender os cabelos e começar a faxina.

Um pouco de tontura e nenhuma tortura. Tudo no devido lugar e podendo ser mudado em qualquer tempo, porque agora está tudo bem! Respiração acelerada, coração acalmando… sabores e cheiros, saudade.

Saudade sempre será um lugar.

Blues tocando, sensibilidade aflorando, barulhinho do vento forte na janela, amor. Dois livros lidos pela metade, assinalados nos pontos mais importantes. Lista de compras escrita à mão. Alguns quadros pendurados, móveis lustrados. Almofadas coloridas por toda parte e um leve espreguiçar.

A busca e o encontro pelo centro, calmaria. Estar perto do que ama, sentir o toque preferido, a brisa bagunçando os cabelos… um minuto ou dois depois.

Um táxi pontual, uma estrada desconhecida. É hora de saber, é hora de ter certeza; sempre ficará tudo bem. Um sorriso largo e um olhar de ternura.

Os mistérios da vida, a simplicidade do cotidiano, a complexidade do ser.

Sempre ficará tudo bem.

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Dancing, dancing

por Dulcineia Vitor

Livre!

Livre corpo e alma, toque e sugestão. Olhar tímido, quase perdido, mas certeiro. Desejo no modo de respirar e movimentar os lábios.

A vida podia ser uma música para você… a composição seria sobre intensidade, cor, serenidade, paixão, silêncio, proteção e paz. A melodia daria um ar de fantasia e a combinação seria uma daquelas coisas que não conseguimos separar.

E você dançaria sem esperar por nada, só para sentir. Seus movimentos seriam em harmonia com cada nota, olhariam todos admirados. Você mudaria os passos e cantaria junto. E no final da canção: olhos fechados.

Dancing, dancing, dreaming of a neon light…

Paz!

Paz nas sensações e na maneira de desenhar a existência, acreditar, ter fé. Há algo de muito especial em ser paciente com o universo e, apesar de inquieto, aceitar com serenidade o que está por vir.

Há algo de muito especial em parecer um dançarino da vida. Em ser o elo entre amigos, em lembrar dos detalhes. Há algo de muito especial em um sorriso inspirador, meio escancarado, meio reservado, paradoxo.

Há algo de muito especial em ser inesquecível para alguém. Em saber tocar, em saber silenciar. Em precisar do máximo de adrenalina pra acordar, mas em observar quieto o que não deixa dormir.

Existe uma música para este texto, um clipe… existem mil outras músicas e clipes para você. Mas esta: Nightwalker de Thiago Petit, tem na letra a descrição do que sinto e no clipe a descrição de quem você é.

…Your shoes will take you for a walk and they will lead you to my door.

Sereníssima

por Dulcineia Vitor

Quantas vezes é possível se perder? Esquecer quem se é. Enganar-se sobre quem se é.

Quantas vezes é possível não enfrentarmos nossas cobiças como vontades do que queremos e nossas ofensas para o outro como vazios nossos? Quantas vezes é possível manter-se no automático sem enfrentarmos o que está diante do nariz?

Quantas vezes é possível deixarmos para trás as cicatrizes das batalhas e nos fantasiarmos de bem resolvidos e evoluídos seres? Quantas vezes é possível esquecer de se interrogar como foi seu dia e como você gostaria que tivesse sido?

Quantas vezes é possível perceber que está tudo errado, se chatear, e mudar tudo outra vez?

Recomeços… entendo bem.

Talvez, quando o caminho percorrido tenha significado, basta olhar de volta. Talvez, uma estrada, uma música, um aroma, um sabor… O start para os questionamentos e para a retomada.

Com certeza, quando as raízes são fortes, basta alimentar. Com certeza, quando se tem amigos para lembrar o que se foi e o que pode vir a ser, é bem melhor.

É possível se perder, se esquecer, se enganar inúmeras vezes. É possível nunca mais se dar conta disso… e é possível também retomar.

A vida tem suas armadilhas.

Que esteja sempre cravado em nós quem somos, o que queremos e onde devemos mudar, para que em todas as crises de amnésia, de fantasia e de ‘vida real modo hard’, possamos ter para onde olhar e voltar.

O que amamos se torna raiz, o que odiamos chacoalha como vento de tempestade. O que construímos é referência, o que desconstruímos é evolução.

Apenas respire e movimente-se.

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