Sobre Dulcineia Vitor

Conversar é minha arte. Compartilhar o silêncio, minha paixão. Escrevo com amor e por amor. Publicitária, jornalista. Aprendendo a amar sem posse, meditar e agradecer. chiliqueria@gmail.com

“Tempo, tempo, tempo, mano velho”

por Dulcineia Vitor

Hoje, enquanto eu tirava a roupa do varal, lembrava de como era importante pra mim dividir a festa do aniversário com você.

Lembrava de como tinha um pouquinho do que você gosta – fanta; e do que eu gosto – coca-cola.

O bolo preparado pela nossa mãe, os doces e até os salgados, os vizinhos por lá, a criançada toda. Seu jeitinho de mostrar seus brinquedos e com muito zelo guardar de volta.

Bexigas, música. A festa ia até tarde?

Hoje, enquanto eu sacudia as camisetas pra não ter que passar – dica da nossa mãe; pensava em como foi ótimo crescer perto de alguém como você.

Somos diferentes, né? Eu bobona, faladeira, exagerada, de humanas. Você quieto, metódico, sério, de tecnologia.

Eu aqui com medo do vírus que se espalhou pelo mundo, você aí tentando viver com alguma normalidade.

Foi importante demais ter sua mão me levando para a escola, me buscando, me ensinando matemática e quase tendo um troço com minha dificuldade em exatas.

Um menino observador, silencioso, que é sensível e amoroso. Apaixonou umas amigas minhas, escolheu uma carreira e seguiu firme. Cresceu e fez os filhos mais lindos que já vi.

Hoje, enquanto eu ajeitava as roupas nas gavetas, lembrava de como você é cheiroso, bonito, dono de uma voz tão forte e um olhar tão doce – espera aí: olhos verdes lindos!

Ter um irmão mais velho é como ter um desbravador do mundo, um orientador da vida, que não importa o tempo, a distância, ele sempre poderá ser seu melhor amigo.

Hoje, enquanto eu pensava nisso tudo eu só pude agradecer sua vida, agradecer seu mais um ano de vida, agradecer a sorte de você existir.

Feliz aniversário, eu amo você!

Merlot com um borrão de ternura

por Dulcineia Vitor

Enquanto preparava o café, pensava em como poria a mesa. Raízes mineiras lhe davam toda noção: pães, bolos e outros doces.

David Bowie era a voz ao fundo e na estante era possível encontrar pedaços da sua alma: playlists com Oasis, Radiohead, Paul McCartney, The Smiths, biografias de Elton John, Duran Duran, Patti Smith, Bob Dylan, Joy Division, e tantos outros…

Você duvida que lá havia muito bom gosto?

A conversa fluída, qualquer assunto poderia ser abordado, bebidas, relacionamento, política, religião e até novela.

A luz que invade a sala, só perde pra luz dos olhos. Mais um pouco de café? O melhor café é de Guaxupé, ouvi dizer com ênfase, e soube que há um jeito todo especial no preparo.

Algumas garrafas de vinho, uma mini adega. Cuidado nas escolhas.

O mundo seria mais bonito se existissem mais algumas de você. Porque você sabe respeitar, distanciar, observar. Sua ironia é engraçada e seu humor único.

Você dança sozinha em casa, você canta com o controle remoto na mão! Rapidinho você prepara a comida, põe a roupa pra lavar e resolve ler um livro.

Você quer paz – seu momento; mas compartilha e ri de como acontece. Cuida dos cabelos, pede dicas e faz tudo ao contrário. Reclama da vida já dando solução e demonstrando toda força interna.

Enquanto preparava o café, pensava em como chegou ali. Suas raízes eram fortes, únicas e ela tão mais forte.

David Bowie ainda era a voz ao fundo, e nas paredes poderia se ver seus desejos de uma vida feliz, bem humorada e livre.

Livre até na hora de escolher não estar.

Sol, girassol, amor, delicadeza, acolhimento, bondade e visão. Praia, bar, boemia, petiscos e escondidinho. Risada escrachada, gostosa de ouvir. Sotaque maravilhoso. Vontade de viver.

Inquietude.

Enquanto preparava o café, pensava em tudo que era, que deixou de ser e que ainda alimenta. Raízes.

David Bowie continua sendo a voz de fundo, que agora compete com um certo barulho de amor.

Mais um pouco sobre você

por Dulcineia Vitor

Gosto como você erra qualquer esquerda e direita e ri falando: esse seu lado aí. Como prepara o prato e senta de perninha de borboleta pra almoçar.

Você é doce, sensível e silenciosa. Devagar você diz o que pensa, coloca sua música e roda pela sala, chega na janela e se perde olhando o mar.

Você tem um sotaque gracioso e a forma formal que se coloca em algumas situações é engraçada.

É admirável seu amor pelo ser humano, sua vontade de ver o que é justo acontecendo. Você quer que todos possam experimentar a essência da felicidade e se magoa por perceber que não é tão fácil.

Gosto como sabe passos de salsa e canta qualquer música em espanhol… Sua mania de gravar vídeos musicais na estrada e cantar alto eu guardaria num relicário.

É como se você soubesse algum segredo sobre a vida, sobre estar viva. É como se você estivesse sempre inteira em tudo.

Conta esse segredo?

Você envolve com sua risada e ali o mundo podia parar. Um humor peculiar, nada de piadinhas conhecidas.

Você acredita que maquiar os olhos seja tão importante quanto pentear os cabelos. Questão de personalidade.

Você sabe que música escolher, como responder aquela mensagem difícil e como morar num abraço. Você cria mil teorias e procedimentos para uma questão, mas simplifica tudo e resolve sem ninguém esperar.

Essa paixão por cuidar dos detalhes, por ouvir, por observar é você. E é importante que você não se perca.

É, não se perca de você, de observar você…

Sobre você

por Dulcineia Vitor

Você pisa tão leve, parece sempre estar envolvida numa canção, daquelas que começam com dedilhadas no violão e logo estão subindo o tom com baixo e guitarra.

Você olha o mar como se nunca tivesse visto e respira tão fundo que parece prender em si toda brisa. Vejo quando fecha os olhos e ouço você agradecer.

Você dá as mãos para caminhar, é firme sabe onde precisa chegar.

Exagera nas declarações, é apaixonada e elogia com emoção. E que se danem o que vão pensar! Que se dane se vão retribuir! Você faz o que sente.

Você se entrega.

Toca a alma de quem ouve você, seduz sem querer e se diverte. Olha profundamente, desvenda a alma.

Você cozinha como quem faz uma oração, se concentra nos aromas, prepara o ambiente. Tudo tem amor e tem que ser belo, tem que ser perfeito.

Suas mãos vão percorrendo levemente o que você precisa sentir: seu corpo, o de alguém, sua essência, a de alguém.

Como você consegue olhar com carinho para tudo? Como consegue responder baixinho o que quer? Como consegue respirar e continuar?

É doce a maneira que você ajeita os cabelos. O vento toca, você deixa bagunçar…

E vai encantando, adoçando. Os dias são melhores com você.

Lá fora chove, você sorri. Lá fora nubla, você se encanta. Lá fora o sol se põe, você fotografa.

Você tem mania de meia luz, de música antiga, de rock clássico. Você gosta de sentir vento gelado e sentar pertinho da janela.

É incrível como param para lhe ouvir e você nem acredita. Você consegue encantar qualquer um.

É especial a maneira que você prevê o que pode acontecer. É inusitada a forma que você pede desculpas e muda de ideia: é, realmente, não estou certa.

São suas formas, suas vontades, seus gestos, suas brincadeiras bobas… Tudo que compõe você. É o brilho dos seus olhos, seu perfume, seu toque. É quando você encosta e diz que não sabe mais de nada, põe as mãos no queixo e começa a analisar… Tudo que me apaixona em você.

Você é sobre saber se olhar, é sobre saber se acolher. Você é sobre ser você.

Tocar o céu

por Dulcineia Vitor

Saudade de pertencer livre, descalça, com as mãos tocando, alcançando, trazendo pra perto, pra dentro.

E querendo mais, sentindo, apertando. Sem pensar. Só respirar, suspirar.

Saudade de pertencer dentro de um abraço com os pés no mar.

E chutar a água salgada pra longe, abaixar, molhar as mãos, abençoar. Sorrir largo, observar com brilho nos olhos, boiar pra tocar o céu.

Saudade de pertencer com os olhos fechados ao pedalar, sem medo, sem prevenção.

E rodar os pés bem rápido, depois parar, soltar as mãos e abraçar o ar.

Saudade de só ser e pertencer. Pegar velocidade no passo, voar. Estar entregue… Viva!

Como será?

por Dulcineia Vitor

Eu sei, a gente tem um bocado de coisas pra aprender. Temos que parar pra entender o que é saudade mesmo, temos que respirar pra saber o que é calma, temos que olhar mais a natureza e agradecer mais os amigos.

Eu sei, sei que a gente tem abraçar com os dois braços e valorizar isso, temos que ouvir com paciência as crianças e valorizar o trabalho do professores, do pessoal da saúde, dos coletores de lixo, do porteiro do prédio, do catador de latinhas.

Eu sei.

Devemos nos respeitar mais, ouvir melhor, falar mais baixo, não jogar lixo na rua, nem mesmo xingar no trânsito.

Devemos nos colocar no lugar do outro, saber que cada um tem uma história, eu sei.

Eu sinto.

O mundo desacelerou, pediu que entendêssemos isso e mais um tanto de situações.

É dolorido. Dolorido ver que ainda há quem só pense em si. Dolorido sentir falta do abraço da mãe, do sorriso de um amigo. Dolorido passar por tudo isso sem saber o que será.

É… E eu não sei como será, mas eu desejo que fique tudo bem.

Força! ❤️

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Uma carta: doce, forte e minha

por Dulcineia Vitor

Desde o cheiro do café no fogo até seu jeito de pedir um favor dizendo “se quiser”, sua risada, sua voz rouca e seu jeito errado de brigar: quase chorando.

Você sempre será a pessoa mais especial da minha vida, porque até quando pensamos diferente somos parte uma da outra, são músicas que me lembram você, são cheiros, são lugares. É uma vida inteira e muito além dela.

É a maneira de mandar voar, empurrar o passarinho pra longe do ninho, mas ainda assim dizer “aqui é seu lugar”. É a forma de agradecer e o cuidado de pedir desculpas.

É o cuscuz com ovo frito, o pirão do mocotó, o peixe fritinho, o macarrão doido de forno, a dobradinha da vó, os legumes na carne. É como põe a mesa, como tira e arruma tudo.

Também é a arte, a arte por todo canto, em tudo que você toca. A arte inventada numa roupa que costura, na tela que pinta ou no papel que molda. É arte aplicada com força na madeira ou com delicadeza nas paredes da casa, é arte até com as plantas.

Você é arte!

É tudo e está em tudo. Na cor dos meus cabelos, no meu jeito de resmungar, na minha coragem e no meu gosto por sossego.

Está nos olhos do meu irmão e no silêncio dele. Está em muito mais.

Sempre estará.

Minha mãe, eu te agradeço e te amo.

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Espaço

por Dulcineia Vitor

Tem gente que é para sempre, sem porquê. Aqueles conselhos, aquele abraço, aquela risada, aquela companhia, aquela voz.

Tem gente que é para sempre, sem para quê. O cheiro, o gosto, o toque.

Quando não se sabe mais quem é, lembra-se do que já foi… Quando se sente dor, lembra-se da ausência. Quando sorri, lembra-se do espaço que ocupou.

Onde quer que se vá, está junto.

Como amor que se espalha no ar, como vento que balança as cortinas, como a noite que cai.

Tem gente que é para sempre, sem quando, sem onde, sem como. Simplesmente é.

Não importa, noite com estrelas, noite com muitas nuvens. Tem gente que é para sempre.

Um dia, uma hora, um segundo; pode ser para sempre.

Quando não há mais explicação, quando não se pode mais tentar. No momento que a saudade cuida de tudo, cuida de ressaltar.

Porque é para sempre. O para sempre só o é, se não há mais.

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Gema Mole

por Dulcineia Vitor

São os detalhes. Cada detalhe!

Quando a luz do sol bate nos olhos e revelam nova cor, quando os óculos escorregam pelo nariz e com uma careta é ajeitado, quando aquela gargalhada sonora é solta e revela uma respiração infantil e feliz.

Os detalhes compõem tudo, revelam muito. É aquele jeito especial da melhor amiga de pôr a mesa do café, a ‘mania’ de organização de alguém, o jeito de passar a marcha no carro… É como seu amigo sorri e aperta os olhinhos, como sua mãe passa manteiga no pão, é como alguém marca sua vida com cada pedacinho da existência.

Tem o jeito de soltar o cadeado da corrente da bicicleta, o jeito de prender a camiseta no cinto, tem o sotaque, a voz de menino, o jeito tímido e bem humorado… Tem a maneira de apresentar o mundo, tem a decoração da casa e o perfume.

A maneira que se prepara os ingredientes para um grande prato, como se chega perto para falar baixinho e como franze a testa para brigar. A maneira que chora e enxuga o nariz, que chega em casa e joga a bolsa no sofá, o hábito de beber água na temperatura ideal, de experimentar o tempero, de gesticular numa explicação.

Enriquece cada mínimo detalhe.

Papai gostava de ovos no café da manhã, cada dia um diferente. Os fritos com a gema mole, tipo preferido dele, me incomodavam e um dia ele disse: “vem filha, vê como com a casquinha do pão fica ótimo”, sem querer muito, experimentei.

Ahhhhh, pai.

Quando a saudade aperta o peito: ovos fritos com a gema mole, casquinha do pão francês levemente molhada nela e pronto, papai está lá.

Toque

por Dulcineia Vitor

Dança devagar, vem! Toca devagar seu par, acolhe, recolhe… Leva para girar, mostra o mundo, as estrelas, a chuva. Deixa seus olhos perdidos, mas tenta se concentrar no olhar do par, roda pelo salão.

Ah, meu amor…

Perde a hora nessa dança, declara seus sentimentos, suas vontades,  fala baixinho, sussurra, toca de novo, gruda, forma um só. Acelera essa dança, toca os lábios e diz para fugirem dali.

Foge, vai longe. Não desiste, não muda o passo.

Sorri pra vida, encanta, chama seu par para conhecer o que é sonhar sem dormir. Toca devagar a cintura, inverte, fala mais alto, escolhe outra música… Dança! Dança!

Abraça com desespero, como se tudo fosse acabar a qualquer momento. Aperta a mão e retoma a dança, deixa a chuva cair. Molha. Respira pertinho da nuca, transforma os passos. Toca firme, puxa.

Respira fundo, recomeça.
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