Sobre Dulcineia Vitor

Conversar é minha arte. Compartilhar o silêncio, minha paixão. Escrevo com amor e por amor. Publicitária, jornalista. Aprendendo a amar sem posse, meditar e agradecer. chiliqueria@gmail.com

Como será?

por Dulcineia Vitor

Eu sei, a gente tem um bocado de coisas pra aprender. Temos que parar pra entender o que é saudade mesmo, temos que respirar pra saber o que é calma, temos que olhar mais a natureza e agradecer mais os amigos.

Eu sei, sei que a gente tem abraçar com os dois braços e valorizar isso, temos que ouvir com paciência as crianças e valorizar o trabalho do professores, do pessoal da saúde, dos coletores de lixo, do porteiro do prédio, do catador de latinhas.

Eu sei.

Devemos nos respeitar mais, ouvir melhor, falar mais baixo, não jogar lixo na rua, nem mesmo xingar no trânsito.

Devemos nos colocar no lugar do outro, saber que cada um tem uma história, eu sei.

Eu sinto.

O mundo desacelerou, pediu que entendêssemos isso e mais um tanto de situações.

É dolorido. Dolorido ver que ainda há quem só pense em si. Dolorido sentir falta do abraço da mãe, do sorriso de um amigo. Dolorido passar por tudo isso sem saber o que será.

É… E eu não sei como será, mas eu desejo que fique tudo bem.

Força! ❤️

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Uma carta: doce, forte e minha

por Dulcineia Vitor

Desde o cheiro do café no fogo até seu jeito de pedir um favor dizendo “se quiser”, sua risada, sua voz rouca e seu jeito errado de brigar: quase chorando.

Você sempre será a pessoa mais especial da minha vida, porque até quando pensamos diferente somos parte uma da outra, são músicas que me lembram você, são cheiros, são lugares. É uma vida inteira e muito além dela.

É a maneira de mandar voar, empurrar o passarinho pra longe do ninho, mas ainda assim dizer “aqui é seu lugar”. É a forma de agradecer e o cuidado de pedir desculpas.

É o cuscuz com ovo frito, o pirão do mocotó, o peixe fritinho, o macarrão doido de forno, a dobradinha da vó, os legumes na carne. É como põe a mesa, como tira e arruma tudo.

Também é a arte, a arte por todo canto, em tudo que você toca. A arte inventada numa roupa que costura, na tela que pinta ou no papel que molda. É arte aplicada com força na madeira ou com delicadeza nas paredes da casa, é arte até com as plantas.

Você é arte!

É tudo e está em tudo. Na cor dos meus cabelos, no meu jeito de resmungar, na minha coragem e no meu gosto por sossego.

Está nos olhos do meu irmão e no silêncio dele. Está em muito mais.

Sempre estará.

Minha mãe, eu te agradeço e te amo.

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Espaço

por Dulcineia Vitor

Tem gente que é para sempre, sem porquê. Aqueles conselhos, aquele abraço, aquela risada, aquela companhia, aquela voz.

Tem gente que é para sempre, sem para quê. O cheiro, o gosto, o toque.

Quando não se sabe mais quem é, lembra-se do que já foi… Quando se sente dor, lembra-se da ausência. Quando sorri, lembra-se do espaço que ocupou.

Onde quer que se vá, está junto.

Como amor que se espalha no ar, como vento que balança as cortinas, como a noite que cai.

Tem gente que é para sempre, sem quando, sem onde, sem como. Simplesmente é.

Não importa, noite com estrelas, noite com muitas nuvens. Tem gente que é para sempre.

Um dia, uma hora, um segundo; pode ser para sempre.

Quando não há mais explicação, quando não se pode mais tentar. No momento que a saudade cuida de tudo, cuida de ressaltar.

Porque é para sempre. O para sempre só o é, se não há mais.

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Gema Mole

por Dulcineia Vitor

São os detalhes. Cada detalhe!

Quando a luz do sol bate nos olhos e revelam nova cor, quando os óculos escorregam pelo nariz e com uma careta é ajeitado, quando aquela gargalhada sonora é solta e revela uma respiração infantil e feliz.

Os detalhes compõem tudo, revelam muito. É aquele jeito especial da melhor amiga de pôr a mesa do café, a ‘mania’ de organização de alguém, o jeito de passar a marcha no carro… É como seu amigo sorri e aperta os olhinhos, como sua mãe passa manteiga no pão, é como alguém marca sua vida com cada pedacinho da existência.

Tem o jeito de soltar o cadeado da corrente da bicicleta, o jeito de prender a camiseta no cinto, tem o sotaque, a voz de menino, o jeito tímido e bem humorado… Tem a maneira de apresentar o mundo, tem a decoração da casa e o perfume.

A maneira que se prepara os ingredientes para um grande prato, como se chega perto para falar baixinho e como franze a testa para brigar. A maneira que chora e enxuga o nariz, que chega em casa e joga a bolsa no sofá, o hábito de beber água na temperatura ideal, de experimentar o tempero, de gesticular numa explicação.

Enriquece cada mínimo detalhe.

Papai gostava de ovos no café da manhã, cada dia um diferente. Os fritos com a gema mole, tipo preferido dele, me incomodavam e um dia ele disse: “vem filha, vê como com a casquinha do pão fica ótimo”, sem querer muito, experimentei.

Ahhhhh, pai.

Quando a saudade aperta o peito: ovos fritos com a gema mole, casquinha do pão francês levemente molhada nela e pronto, papai está lá.

Toque

por Dulcineia Vitor

Dança devagar, vem! Toca devagar seu par, acolhe, recolhe… Leva para girar, mostra o mundo, as estrelas, a chuva. Deixa seus olhos perdidos, mas tenta se concentrar no olhar do par, roda pelo salão.

Ah, meu amor…

Perde a hora nessa dança, declara seus sentimentos, suas vontades,  fala baixinho, sussurra, toca de novo, gruda, forma um só. Acelera essa dança, toca os lábios e diz para fugirem dali.

Foge, vai longe. Não desiste, não muda o passo.

Sorri pra vida, encanta, chama seu par para conhecer o que é sonhar sem dormir. Toca devagar a cintura, inverte, fala mais alto, escolhe outra música… Dança! Dança!

Abraça com desespero, como se tudo fosse acabar a qualquer momento. Aperta a mão e retoma a dança, deixa a chuva cair. Molha. Respira pertinho da nuca, transforma os passos. Toca firme, puxa.

Respira fundo, recomeça.
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Pertencimento

por Dulcineia Vitor

Dia de inverno com sol, vento fresco do mar, garoa fina da madrugada. Toque suave durante o sono, palavras duras para enfrentar a vida, amigos companheiros. Cafuné para dormir, voz pertinho da nuca para acordar, cabelos molhados para pedalar.

Um bom café, doce, desculpe.

Unhas vermelhas e olhos sempre pintados. Balançar de corpos a qualquer música, olhar de ternura, olhar de tesão. Sabores inesquecíveis, aromas perfeitos. Chocolate, cigarro, cerveja, um bom vinho…

Música alta para não pensar, música baixa para sentir. Música no repeat. Roupas novas, cor nova nos cabelos. Um bom filme, a mesma série. Pedalar devagarinho, deixar o embalo levar… Olhos fechados na brisa, olhos abertos na hora de voar.

Brigas com a balança, caso de amor eterno com o espelho. Narcisismo, paixão, sedução. Meiguice, capacidade de olhar pelo outro, incapacidade de conviver com a tristeza. Desistência.

Coragem, medo.

O bom e velho rock n’ roll, moto, estrada tranquila, pássaros, árvores: araucárias. Descobertas, rotina, sucesso. Gente nova, gente velha, gente querida, gente perigosa. Acertos, erros, pedidos de perdão. Amor, amar, sexo, boa comida. Sensações novas, saudades da infância.

Pertencer-se.

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Anoitecer

por Dulcineia Vitor

Passei um bom tempo contemplando o pôr do sol, me aquietei sentada na grama observando cada raio laranja arranhando o céu, atentei a cada centímetro que o sol escondia de si, tentei contar as nuvens branquinhas que sobraram. Apontei a câmera, desfoquei a imagem, vi o sol maior do que meus olhos podiam ver, cliquei.

Tentei pensar numa música que pudesse compôr o momento, o silêncio tomou conta, brisa geladinha foi se aproximando, fechei os olhos, deixei tocar os cabelos, escureceu. Procurei pela lua, encontrei junto com muitas estrelas.

Quanto tempo dura o pôr do sol? E dentro de nós?

Muitas vezes não será possível responder as perguntas, talvez a importância, o tempo, um dia responda. Nunca conseguiremos capturar tudo o que vemos e o que sentimos, será sempre a essência disso.

Anoitece hoje com toda beleza e imensidão, amanhece amanhã com toda ingenuidade e esperança. O amor se renova, a paz se estabelece, a força aumenta e logo brilha os olhos.

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