Não me faça suspirar

por Dulcineia Vitor

O instante que os olhos se encontram e você se sente completamente decifrada.

Tom de voz, respiração, gargalhadas, choros, amor… Histórias para contar, músicas para compartilhar… Novos momentos o tempo todo, novos toques, novos olhares, muito mais cumplicidade.

Amigos são presentes da vida. A vida não é justa, não é fácil, não é bonita; o que a torna assim ou próxima disso são estes seres que chamamos de amigos. Sem eles, nada vale.

Eles aparecem e de repente podemos chamar de “meu”, “meu amigo”. São em vários momentos, um amigo que apresenta outro, aquele na escola que empresta a caneta, o do trabalho que lhe convida para a happy hour, o vizinho que cresce ali do seu lado, o cara da praia, a menina da internet… Se moldam com você, passam a fazer parte de você. Ajudam a escolher novas roupas, a esquecer velhos amores, a se valorizar, a se reconstruir. Brigam com você.

Mão na massa, amigo de verdade é um pedreiro.

Um amigo ensina a dar shift+del na vida, para que aquilo que está errado seja deletado sem nem passar pela lixeira. Ensina como deixar o bolo mais molhadinho, como virar a tequila, como ouvir o baixo numa música, como pronunciar uma palavra longa, como não rir em momentos errados, como abrir o sachê do ketchup, como ultrapassar seus limites, como dar um golpe certeiro na vida.

Amigo se mistura, se perde em você e quando vocês se abraçam é o melhor lugar do mundo! Liga de madrugada para saber se você estava dormindo, manda sms respondendo ou perguntando bobagens, avisa sempre quando está bêbado… Lhe faz especial, lhe faz sorrir.

Ah, não me faça suspirar! Amigos não são pessoas, são lugares especiais.

E nessa vida, ganhei diversos lugares especiais. Preciosidades que cuidam de mim, que me fazem sentir especial, que dividem a panela de brigadeiro, que me fazem cafuné, que abrem a cortina pra eu ver o sol e que arrumam minha cama pra dormir. Pessoas que são pedaços de mim, que me constroem e reconstroem. E que sorte, quanto amor…

Amigo é para viver! Viva-o!

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A última queda

por Dulcineia Vitor

Sem ilusões, não é a última queda. Nunca é.

Se jogou na frente de um caminhão e não foi atropelada. Pediu para que desta vez os sentidos adormecessem, mesmo estando acordada. Quis algum silêncio duradouro, mas a mente não se cala jamais. Não é assim que acontece, não é como você quer…

Os sentimentos vão atropelando a razão, a razão vai perdendo o porquê de existir. E para cada pedido que se faz para a vida, três grandes dores lhe são condenadas: a dor das raízes nascendo, da planta crescendo e da coragem para cultivá-la.

As dores só passam no cultivo.

Quando a raiz nasce, você nem percebe, alguma coisa lhe surpreende, dói, mas você nem vê, deixa a vida seguir… Um suspiro mais forte lhe mostra a planta ali, já nascida, pedindo cuidados. E aí, a tão difícil hora de cultivá-la.

O cultivo é a coragem. Coragem machuca, vem da alma e alma está pregada no corpo. É devido que se solte a alma para ter coragem… Coragem é livre, não tem paradigmas, não tem medos falsos, ela faz aquilo que lhe transforma numa pessoa realizada.

A coragem é a fortaleza do guerreiro, é a velocidade do corredor, é a voz do cantor.

A coragem sempre vai doer, mas trará resultado. E você vai cair, mas vai levantar. Não será a última queda, nunca é.

Devagar aterrize, coragem!

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