Recomeço

por Dulcineia Vitor

Quando apercebe-se do recomeço, dói. Como acostumar-se? É recomeço, é novo, não há costume no novo, só há novidade. Nem sempre é ruim, mas tem vezes que é.

Daí, tem os velhos hábitos que nem valem mais, não cabem, ficam frouxos ou vazam. E é importante que tudo esteja na medida, pelo menos agora, de outra forma doeria mais, cortaria a carne, além de arrancar a pele. Para onde ir? O que fazer? E por quê?

Passeiam lembranças que perderam o sentido de permanecerem tão perfeitas, tão intactas, tão vivas, já que se tem que recomeçar. Absolutamente nada faz mais sentido tanto quanto gostar de qualquer coisa, sentir prazer, considerar bom, querer mais um pouco, ter algo ali normal, algo que esteja, até, estagnado, sem surpresas.

O silêncio invade tudo. No meio da madrugada uma gargalhada sozinha sem outra para confirmar que aquilo fora mesmo engraçado, é estranho. Falta alguém que gaste sua voz de sono pela manhã e não se atenda o telefone ainda com ela. Não é ruim por isso, é ruim por ser recomeço.

E é o tempo que vai passando… Metade de tudo é confuso, outra metade é loucura. As surpresas se mostram o tempo todo, as músicas dizem muito, mas muito mais do que antes diziam, e, olha que sempre disseram muito. O pó do café no coador é em menor quantidade, a água fervida também deve ser. O perfume só vai ser elogiado tempos depois, a maquiagem feita não é mais apressada.

É tudo parte de um novo começo. É tudo parte do recomeço.

Desejou-se reinventar em 5 minutos como em uma cena de Bridget Jones, 5 minutos lá bastam. Sobe a música e tudo já está diferente. Mas não é assim.

Se vê com novos hábitos: observar paredes brancas, ver TV andando pela casa, escutar música sem se movimentar… Se reconhece, porque se perde no que é. Passa a ter coragem, saber o que quer. Lembra de se cuidar, se vê gostando, se vê odiando.

E que se conviva com a dor, que nem sempre é dor. É, algumas vezes, só recomeço.

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Ô coisinha tão bonitinha da filha

por Dulcineia Vitor

É só quando crescemos que percebemos que nada é para sempre.

Nunca pensei que meu pai fosse um herói. Ao contrário de muitos pais por aí, o meu se expunha, demonstrava seu lado ser humano, tinha dúvidas, discutia, ouvia. Porém, sempre achei que ele fosse eterno.

Doce ilusão.

Quando, aos 26 anos, perdi meu pai, foi um choque. Claro que não estava preparada. Infelizmente, eu já tinha passado por desilusões suficientes para entender que a vida “não é bem assim”, mas pô, meu pai! Aquele que me ensinou tanto, como podia ir assim? Mas foi.

O cara que quando eu tinha uns 5 anos me incentivou a abrir meu primeiro negócio, sim, isso mesmo. Ele sempre acreditava no que eu queria, acreditou até o último dia. Porém, só quando via o brilho nos meus olhos. Me ensinou que é com paixão que se faz as coisas, caso contrário, melhor nem fazer.

Tenho como provar que até bolo feito sem amor dá dor de barriga.

Um pai que além de presente fisicamente era presente na alma, eu sentia a presença dele – ainda sinto. Se existir outra vida, nossas almas já eram ligadas de lá. Hoje, posso fechar os olhos e ouvir a voz dele, saber exatamente o que tem pra me dizer, do que reclamaria e que caminhos ele me mostraria na dúvida.

Uma pessoa especial, iluminada, que ajudou muita gente. Que me ensinou a questionar, a amar à toa, a entender os outros ou tentar. Que nunca se vendeu e que me mostrou o porquê da vida de cada um valer mais que qualquer outra coisa no mundo.

Papai dizia pra terminarmos o que começamos, mas só se ainda fosse coerente, apaixonante. Por isso hoje sei mudar de rota, me atropelo, atrapalho, choro sentada no chão, mas levanto e vou.

Obrigada pai! Sempre o amarei!!


E aqui a música que ele me cantava quase todos os dias, juro!

Dá o play!!